19/08/2026

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Laura Cardoso: o Brasil se despede de uma de suas grandes damas da dramaturgia

Aos 98 anos, atriz que atravessou oito décadas de história deixa personagens, ensinamentos e uma trajetória que se confunde com a própria história da televisão brasileira

Hoje, as artes brasileiras e o Brasil noveleiro amanheceram mais tristes.

Subiu ao céu dos grandes artistas uma das mulheres que ajudaram a construir a dramaturgia brasileira: Laura Cardoso.

A atriz morreu na noite desta segunda-feira, 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, em São Paulo, cidade onde nasceu, cresceu, construiu sua família e dedicou grande parte de seus mais de 80 anos de carreira à arte de representar. A informação foi confirmada pela família por meio do perfil oficial da atriz. A causa da morte foi natural.

E talvez seja difícil encontrar uma definição capaz de resumir Laura Cardoso.

Atriz? Sim.

Mas também pioneira, professora, companheira de cena, contadora de histórias e uma dessas raras artistas que pareciam pertencer a várias gerações ao mesmo tempo.

UMA VIDA DEDICADA À ARTE

Laurinda de Jesus Cardoso começou sua trajetória artística ainda adolescente. Em 1942, aos 15 anos, iniciou a carreira no rádio, participando de radionovelas.

Naqueles tempos, não havia a facilidade dos recursos tecnológicos de hoje. O ator precisava emprestar a voz, a emoção e a imaginação para que o ouvinte construísse mentalmente cada personagem.

Laura fez isso com maestria.

Quando a televisão brasileira começou a dar seus primeiros passos, ela estava lá.

Em 1952, chegou à TV Tupi e participou de Tribunal do Coração, entrando para a história como uma das pioneiras daquele novo meio de comunicação.

Era uma televisão ainda feita praticamente ao vivo, com cenários, textos e atores enfrentando os desafios de uma tecnologia que começava a transformar o modo como os brasileiros contavam e assistiam histórias.

Laura não apenas acompanhou essa transformação.

Ela ajudou a construí-la.

UMA GALERIA DE PERSONAGENS

Ao longo de oito décadas, Laura Cardoso construiu uma verdadeira galeria de personagens.

Foram mais de 100 trabalhos na televisão, incluindo mais de 60 novelas, além de participações no teatro e no cinema.

Entre tantos personagens inesquecíveis, estão Donana, de Pão-Pão, Beijo-Beijo; Isaura, de Mulheres de Areia; Guiomar, de A Viagem; Carmem, de Chocolate com Pimenta; Francisquinha, de Como uma Onda; Laksmi Ananda, de Caminho das Índias; Dona Sinhá, de Sol Nascente; e Matilde, de A Dona do Pedaço.

E havia uma característica que fazia Laura ser diferente.

Mesmo quando aparecia em uma participação menor, era difícil não prestar atenção.

Ela não precisava necessariamente ser a protagonista.

Laura Cardoso fazia o personagem existir.

UMA ARTISTA QUE ENSINAVA ALÉM DO TEXTO

A admiração por Laura não vinha apenas do público.

Colegas de profissão frequentemente falavam sobre sua disciplina, generosidade e respeito pelo ofício.

Um dos depoimentos mais emocionantes após sua morte veio de Tony Ramos, amigo e parceiro profissional de mais de seis décadas.

Ao falar sobre a atriz, Tony a chamou de “rainha da TV” e destacou sua generosidade e a importância que teve para a dramaturgia brasileira.

Outros artistas também lamentaram a perda, entre eles Ary Fontoura, Miguel Falabella, Fabiana Karla e Zezé Motta, que ressaltaram o talento, a generosidade e a importância de Laura para várias gerações de profissionais.

Talvez seja justamente aí que esteja uma das maiores heranças deixadas por ela.

Laura não ensinava apenas como interpretar.

Ensinava, principalmente, como respeitar a profissão.

A carreira de Laura foi marcada por inúmeros prêmios e homenagens.

Ela recebeu, entre outros reconhecimentos, dois Prêmios Shell de melhor atriz, além de premiações no cinema e na televisão.

Em 2025, recebeu uma das maiores honrarias culturais do país: a Ordem do Mérito Cultural, no grau de Grã-Cruz, concedida em reconhecimento à sua contribuição à cultura brasileira.

Também passou a integrar a Calçada da Fama dos Estúdios Globo, ao lado de outros grandes nomes que ajudaram a construir a história da televisão brasileira.

UMA MULHER DE FAMÍLIA

Por trás da grande atriz existia Laura.

A mulher, mãe, avó e bisavó.

Laura foi casada com o ator, diretor e roteirista Fernando Balleroni, com quem teve três filhos. Uma dessas crianças, um menino, morreu poucos dias depois do nascimento. Laura ficou viúva em 1980 e não se casou novamente. Suas filhas, Fátima e Fernanda, permaneceram próximas e participaram da preservação de sua trajetória e memória.

É uma lembrança importante porque, por trás dos personagens que entravam diariamente na casa dos brasileiros, existia uma mulher que também tinha sua própria história, suas perdas, seus afetos e sua família.

E AGORA?

Agora ficam as personagens.

Ficam as novelas.

Ficam as cenas.

Ficam as reprises.

Ficam as fotografias.

Ficam as histórias contadas por quem teve a oportunidade de dividir um palco ou um estúdio com ela.

E fica principalmente uma geração de artistas que aprendeu, observando Laura Cardoso, que talento sem dedicação não basta e que uma grande carreira também é construída com respeito pelo próximo e amor pelo que se faz.

Laura Cardoso partiu.

Mas, para quem trabalha com imagem, televisão e memória, existe uma certeza:

alguns artistas não morrem quando deixam de respirar.

Eles continuam vivos toda vez que uma cena é reprisada, quando um personagem volta à tela, quando alguém se lembra de uma fala ou quando um jovem ator descobre, assistindo aos antigos trabalhos, como se conta uma boa história.

Laura pertence agora à memória da dramaturgia brasileira.

Mas sua obra continuará falando.

UMA HOMENAGEM DA TV PIRAJUCARA

A TV Pirajucara presta sua homenagem a Laura Cardoso, uma das grandes artistas brasileiras e uma mulher que dedicou mais de oito décadas à arte de contar histórias.

Deixamos nosso respeito à família, aos amigos, aos colegas de profissão e a todos os brasileiros que, em algum momento, abriram a porta de casa e encontraram Laura Cardoso do outro lado da tela.

Obrigado, Laura.

Obrigado pelas personagens.

Obrigado pelas histórias.

Obrigado pelas décadas de dedicação.

E, principalmente, obrigado por nos lembrar que a arte pode atravessar o tempo.

Hoje a televisão brasileira perde uma de suas grandes damas.

Mas a memória permanece.

Laura Cardoso, presente.

 

Da Redação: TV Pirajucara
Por: Paco Mariano

“Só a imagem pode resgatar o tempo.”

Fontes de pesquisa

Folha de S.Paulo – informações sobre o falecimento, trajetória, personagens e carreira de Laura Cardoso.

UOL Splash / F5 – confirmação da morte, informações familiares e repercussão entre artistas.

TV Globo / Gshow – trajetória de Laura Cardoso na televisão e depoimentos de colegas de profissão.

Diário Oficial da União / Ministério da Cultura – registro da concessão da Ordem do Mérito Cultural a Laura Cardoso em 2025.

Globo – Relatório de Sustentabilidade 2025 – registro da atriz entre os nomes homenageados na Calçada da Fama dos Estúdios Globo.